É difícil dar certo. Homem e mulher raramente dão certo. Chego a pensar que vivemos com o par de uma outra espécie animal. Como se na hora de fechar a porta da arca, o orangotango macho ficasse vendo a cobrança de pênalti do seu time no último minuto da prorrogação e a fêmea do chipanzé estivesse em dúvida sobre o que usar no primeiro dia da viagem. Sem poder esperar mais, Noé considerou como casal os dois representantes das espécies parecidas e levantou âncora. Algo assim aconteceu com o homem e a mulher. Senão, porque cada um dos gêneros tem um nome diferente?
Daí a estranheza entre os casais dos ditos humanos. Nenhum dos dois se comporta segundo as expectativas do outro. A questão sobre as tampas das bacias sanitárias é uma das melhores provas da nossa incompatibilidade. A diferença entre as capacidades de perceber as nuances das cores é uma demonstração cabal de que não temos uma origem comum.
É este desencontro pré-diluviano que provoca a necessidade de homens e mulheres se reunir em separado. Você já viu um bando de tatus ficar no bar até tarde discutindo futebol? Já teve notícias de três ou quatro jaguatiricas tagarelando no banheiro?
Cada homem e mulher carrega uma certa nostalgia pela ausência do verdadeiro par. Por isso gostamos tanto de animais de outra espécie. Talvez adivinhemos neles alguns traços do objeto perdido.
Sei que esta hipótese sobre o desencontro originário carece ainda de respaldo científico. Mas não é coisa difícil de provar. Homem e mulher estão com o par da espécie errada. Mas às vezes dá certo. E é muito bom quando dá certo.
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